Texto de análise sobre a obra de Germano Almeida

Começa por uma análise do romance Eva, mas acaba por fazer um panorama de toda a obra do autor - texto da autoria de Ana Cordeiro.
 
Em 2006, Germano Almeida publica Eva, o seu décimo quarto título e é curioso verificar que ao longo dos anos, e já lá vão dezassete desde que publicou o primeiro livro, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, tem reiteradamente afirmado não se considerar um escritor, mas sim um contador de estórias. Explica a diferença pelo facto de que o que verdadeiramente lhe interessa é ter uma estórea e alguém a quem a contar. A forma só lhe importa na medida em que serve o conteúdo e os recursos estilísticos ou linguísticos que utiliza estão submetidos às necessidades do enredo que é, de facto, a sua prioridade. Ele pertence à geração que teve o privilégio de entrar no mundo da ficção pelas palavras ouvidas e não pelas palavras escritas, e por isso não é de estranhar que essa marca da oralidade esteja tão claramente presente nas suas obras.
 
Se lermos o que escreveu sobre nho Quirino em A Ilha Fantástica perceberemos o fascínio sobre ele exercido por esse velho contador de estórias, dono de um talento tão extraordinário que, quando o autor, anos depois, leu a História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, confessou: “não a achei nem tão maravilhosa nem tão poética como contada por nho Quirino” (I. Fantástica, p.52). Na tradição oral cabo-verdiana, seja ela de raiz europeia, africana ou oriental, encontramos todos os ingredientes necessários à ficção: as aventuras, as histórias de amor mais românticas lado a lado com os casamentos por interesse, a coragem heróica e a personagem pícara, transformada em herói por acaso, a vitória do bem sobre o mal, mas também a vitória da astúcia, do engano e da traição, uma visão fantástica e mágica do mundo que não exclui o olhar pragmático e materialista desse mesmo mundo, enfim o universo encantado das fadas e princesas coexistindo com a insaciável fome de Ti Lobo e as deslealdes do seu sobrinho que, afinal nada são, quando comparadas com a terrível traição que vitimou Blimundo.
 
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